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AntiBlogue

Blogue dum casal real, anti-fashion, anti-fit e anti-top. Detestamos correr, praia no Verão e berros de crianças. Gostamos de viajar, comer, música, livros, vegetar em frente à TV, saldos, limões e sobretudo um do outro.

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Blogue dum casal real, anti-fashion, anti-fit e anti-top. Detestamos correr, praia no Verão e berros de crianças. Gostamos de viajar, comer, música, livros, vegetar em frente à TV, saldos, limões e sobretudo um do outro.

Numa manhã limpa de Janeiro, Tomé nasceu. Não chorou, sequer por ceifar, na mesma hora, a vida de Flor, sua mãe. Negro como a noite, quebradiço de tão fino, olhos pretos clarividentes, onustos de vida. Por nove anos não se lhe conheceu o choro. Garoto frágil, sempre descalço, dois palitos por pernas. Num desmoronamento perdeu o dedo menor do pé esquerdo. Mordeu com força os lábios carnudos e rosados, susteve a respiração o quanto pode, mas sucumbiu. Rolaram lágrimas espessas e pesadas. Foi a primeira vez que saboreou o sal metálico do choro e a única em que foi uma dor física que o fez chorar. Nos sessenta e quatro anos seguintes chorou mais três vezes, contadas como aparições da Senhora do Rosário. Dizem os antigos da aldeia, sem saber, que é promessa; que é por penitência que rapa barba e cabelo de cada vez que chora. Um pouco menos raras foram as ocasiões em que quebrou o silêncio; mas Tomé podia ser feito de palavras, de tanto que diz sem falar. Diz com os olhos, com o ritmo da respiração, com os sorrisos com que brinda os de quem gosta, com o embalo dos ossos secos sob a roupa sempre muito branca. Hoje, Tomé falou pela última vez. Tem a pele baça das rugas e das décadas, a dentição de marfim já com falhas, duas voltas no carrapito grisalho e pés, como sempre, descalços, mas o olhar é fresco, por estrear, ainda com tanto por dizer.