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AntiBlogue

Blogue dum casal real, anti-fashion, anti-fit e anti-top. Detestamos correr, praia no Verão e berros de crianças. Gostamos de viajar, comer, música, livros, vegetar em frente à TV, saldos, limões e sobretudo um do outro.

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Blogue dum casal real, anti-fashion, anti-fit e anti-top. Detestamos correr, praia no Verão e berros de crianças. Gostamos de viajar, comer, música, livros, vegetar em frente à TV, saldos, limões e sobretudo um do outro.

só que foi real.

Uma pessoa da empresa em que trabalho ia viajar em serviço. Foi barafustar com o departamento responsável pela marcação das viagens porque o vôo incluía uma escala em Bruxelas, no aeroporto de Zaventem, e não queria passar por nenhum aeroporto em que tivessem ocorrido atentados, porque é "muito perigoso" e "irresponsável" e "sem garantias reais de segurança" e tal. A pessoa em questão tem, convém esclarecer, um bocadito (grande) de paranóia com a segurança e as funções que exerce estão, em certa medida, relacionadas com o tema. Tentou tudo por tudo para alterar o vôo, mas já não foi possível porque não havia alternativas para as datas em que era necessário viajar. Até aqui tudo certo.

 

Mas qual era o destino final, conseguem adivinhar? Eu digo-vos. Era o Afeganistão.

 

Na empresa multinacional em que trabalho já há algum tempo, há aumentos salariais todos os anos, ou tem havido. A bem da justiça, creio que hoje em dia é rara a empresa que o faz. Contudo, não se pense que os aumentos são significativos, longe disso. Muitas vezes o aumento não é suficiente sequer para acompanhar a inflação. Mas o grande busílis é que os aumentos não são iguais para todos os trabalhadores, nem dentro de cada categoria profissional, nem coisa nenhuma. Aliás, uma das lutas antigas dentro da empresa é pela equidade salarial, já que as diferenças de salário entre trabalhadores da mesma categoria profissional podem ser abissais, com diferenças de mais de 300%. A direcção da empresa usa este facto para aproveitar a distribuição de aumentos para alegar que esta distribuição serve como ferramenta para diminuir as diferenças. Ora, como é fácil de ver, com aumentos que têm andado, em média, em volta do 1%, tentar ajustar diferenças salariais que por vezes chegam a mais de mil euros mensais, a este ritmo, daqui por 2 séculos ainda estaríamos sensivelmente no mesmo sitio. Depois, há mais uma agravante, que é o facto da direcção alegar (contudo, sem conseguir provar) que os aumentos salariais estão relacionados com a avaliação de desempenho. Ou seja, dizem também que os aumentos não são iguais para todos porque uns são melhores que outros, argumento que simplesmente cai por terra quando trabalhadores que têm uma avaliação de desempenho muito acima da média, e mesmo acima dos 100%, têm aumentos salariais abaixo da média. Este exemplo é o meu próprio, pelo que sei do que falo. A comunicação dos aumentos salariais anuais costumava ser feita à porta fechada e individualmente, pelo que cada um sabia exactamente qual o montante do aumento e ainda tinha alguma hipótese de, não mudar a decisão, que é apresentada como facto consumado e incontornável, mas pelo menos manifestar a sua opinião, colocar questões, etc. Este ano porém, a comunicação foi feita de forma ainda mais caricata e, na minha opinião, desrespeitosa. No departamento em que exerço funções actualmente, há várias equipas organizadas em Ilhas de 2-4 pessoas cada, num open space, e o director tem um gabinete dentro da mesma sala. Uma das equipas é composta por 8 pessoas, distribuídas por duas ilhas intercaladas com outra. O chefe dessa equipa comunicou os aumentos aproximando-se de cada uma das ilhas e dizendo que os aumentos rondavam o 1%, um pouco mais para uns, um pouco menos para outros. O aumento do subsídio de alimentação foi de 13 cêntimos. Vocês já sabem como estas coisas são. Assim. Em grupo e voz alta, mas sem esclarecer nada. A comunicação à minha equipa conseguiu ser feita de forma ainda mais caricata. A chefia, poucos minutos depois desta cena, chegou-se mais perto de nós e disse isto, ipsis verbis: "Bem, ouviram o que o sr. X disse, não foi? Pronto, aplica-se. Portanto, aquela compra que andavam a adiar à espera do aumento... Ainda não vai ser agora" (entre risos típicos de quem não faz a menor ideia do que é ser chefe e da sensibilidade do tema). Não chegando o descabimento destas comunicações, aparentemente até tivemos sorte, pois colegas há na mesma sala que nem tiveram direito a comunicação alguma. Para acrescentar dois pequenos pormenores à narrativa, cumpre explicar que: Tudo isto se passou vários dias após termos recebido o salário, já com o devido aumento (para quem o teve); Os recibos de ordenado são entregues em mão, todos os meses (a versão digital demora cerca de um mês e meio, que está ainda é uma daquelas empresas dependentes do papel), normalmente logo a seguir a recebemos, mas este mês os recibos chegaram num dia à chefia, mas às nossas mãos ainda tardaram 5 dias...

Ouvido hoje, no festival de horrores sociológicos (ou serão maravilhas?) que é o meu local de trabalho:

"Não se sabe o que aconteceu, se foi do coração ou um ataque epiléctrico..."

 

Ainda há dias outra pessoa disse duas vezes "isto é para todos os cidadões" (e não era o Cavaco!), e uma terceira perguntava pelo obcesso do colega.

Eu confesso, às vezes tenho de pensar em coisas muito tristes para conter os ataques de riso, outras vezes tenho mesmo de me esconder para libertar as gargalhadas antes que me engasgue.

O estagiário (não o "meu", que esse já se foi embora, infelizmente, mas regressou um dia para me trazer os limões que havia prometido na primeira semana de estágio - quase um ano antes) chegou uma semana antes do natal. Foi bem acolhido, claro. Eu fui lembrar The boss de contar com o miúdo para o almoço de empresa e para o cabaz de Natal. Teve, portanto, direito a uma festa de empresa, um outro almoço comemorativo de já não sei o quê (qualquer pretexto serve para a malta se juntar na galhofa e, sobretudo, comer - aquela malta é tipo marabuntas, vocês não estão bem a ver!), e ao cabaz de Natal (bem jeitoso, por acaso). Ao terceiro dia, saiu mais cedo, estava doente. Depois um familiar teve um problema de saúde, não veio. Depois teve problemas no regresso da terra e também não apareceu. Depois esteve doente outra vez. E depois deixou de avisar e continuou a não aparecer.
Depois houve algo entre um reality check e um puxão de orelhas e apareceu numa bela tarde. Depois melhorou, "só" não aparecia se algum dos chefes estava ausente. Ou se tivesse de "estudar", como se lembrou de avisar numa 2ª feira depois das 10. Além de tudo isto, nunca conseguiu chegar a horas, queixava-se da instabilidade dos comboios (só que há comboios de 10 em 10 minutos).
Deve ser do generation gap, mas isto faz-me uma confusão dos diabos. Comentava isto com o marido, e ele conta-me episódios idênticos na empresa dele. O melhor de todos foi o moço que, como lhe estavam a dar pouco trabalho para fazer (algo a ver com a indisponibilidade das chefias para dar orientação), decidiu deixar de ir durante uns dias, sem dar cavaco a ninguém e achando que ninguém daria pela sua ausência. Claro que a sua esperteza foi detectada (as leis de Murphy não falham) e não se deu lá muito bem.
Eu juro que não sou daquelas pessoas que dizem "no meu tempo é que era", mas o meu primeiro instinto é de indignação, por não compreender que noção distorcida da realidade que estes putos têm, se acham que este tipo de comportamentos é aceitável em ambiente laboral. Interrogo-me que noção de responsabilidade lhes foi passada em casa e nas escolas. Depois lembro-me que estamos em Portugal, terra onde reina a impunidade e onde a Chico-espertice dá vantagens inequívocas, e isso, infelizmente, serve de atenuante.

 

Último ataque de riso (acontece-me, às vezes nos piores momentos).

Em viagem de trabalho aos Açores, com a chefe.

Assim que o avião aterra, anda só um pouco na pista e pára. A tripulação (bem divertida e simpática, por sinal) pede desculpa pela pequena interrupção e esclarece que a mesma se deve ao facto de estar um pequeno animal na pista, mas que já estava no local uma viatura com alguém para remover o bicho. Pergunta a chefe: "O quê, está uma vaca na pista?!"

No planeta em que eu vivo, milhões de mulheres (cerca de seis mil por dia!) são mutiladas enquanto adolescentes, cortam-lhes o clitóris, com uma faca, ou uma navalha, ou um pedaço de vidro, em nome da tradição, que em pelo menos 28 países pode ser sinónimo de castigo pelo azar de se nascer fêmea.

No planeta em que eu vivo, há raparigas que são ameaçadas, intimidadas e impedidas pela força, com tiros, se querem ir à escola, porque a educação é um direito que lhes é vedado.

No planeta em que eu vivo, são as mulheres que andam dezenas de quilómetros todos os dias para trazerem água e lenha para as suas aldeias (em África, 90% deste esforço é feito por mulheres, e a tarefa pode demorar até 8 horas diárias).

No planeta em que eu vivo, há crianças, meninas, que são vendidas aos seus futuros maridos por tostões, enquanto o horripilante mercado de tráfico humano movimenta pelo menos 800.000 mulheres e crianças por fronteiras internacionais para servirem enquanto escravas sexuais.

Neste planeta, o poder está, maioritariamente, nas mãos dos homens, tal como o acesso ao trabalho, à riqueza, aos direitos, à saúde, à educação. Em Portugal, para não variar, a situação é bem pior do que a média europeia.

No planeta em que eu vivo, é tristemente comum, no século XXI, milhares de mulheres nos ditos países desenvolvidos morrerem devido a maus tratos às mãos dos seus maridos e companheiros. Só em Portugal, em 2015, foram trinta e cinco, deixando órfãs quarenta e seis crianças. Neste mesmo planeta, muitas mulheres têm medo, têm vergonha, de fazer queixa e de pedir ajuda em casos de violência doméstica e de violação. O que se torna, em certa medida, compreensível, dados os casos de impunidade descarada, como aquele em que o violador de uma mulher grávida, sua paciente, sai impune porque não ficou provado que tivesse usado "demasiada violência"...

Pois, neste planeta onde eu tenho de viver, as violações são assunto corriqueiro e impune em algumas partes do mundo; perdão, em todo o mundo.

 

Eu vivo num planeta onde os empregadores, nomeadamente os meus, acham que no dia da mulher fica bem oferecer uma flor a cada funcionária, mas onde as condições de trabalho são distintas, tal como os salários e o acesso a certos cargos, para pessoas de um e de outro género. Na Europa, os salários médios das mulheres são 16% mais baixos do que os dos homens, e a diferença foi agravada com a crise económica. Aparentemente, vamos precisar de, pelo menos, mais 118 anos para as desigualdades económicas entre géneros se dissiparem. Legal ou ilegalmente, muitas mulheres perdem o emprego ou oportunidades na carreira pelo simples facto de engravidarem.

 



Infelizmente, este é o meu planeta. Por isso, às pessoas que dizem que o Dia da Mulher é uma tolice, que não faz sentido, que é um dia feito para as floristas venderem rosas e que "não há igualdade porque não há dia do homem", eu pergunto em que planeta vivem. É que gostava muito, mesmo muito, de viver num planeta em que não fizesse falta haver um dia da mulher.

O grande chefão lá do sítio que me paga o ordenado acha (e di-lo publicamente, com todas as letras e zero pudores) que a percentagem elevada (elevadíssima, mesmo, a roçar os 3 dígitos percentuais) de pessoas que vai trabalhar quando está doente é um sinal positivo. E também acha que isto é apenas uma manifestação da dedicação dos trabalhadores à empresa. Nem sequer se questiona sobre a relação entre estes e os valores homólogos dos outros países, os salários, o custo de vida, a produtividade, as condições de trabalho... Digam lá que não queriam ter um destes génios optimistas ao leme da vossa empresa!

Aplicável a estágios, horas extraordinárias, e muitas mais situações a que as políticas liberais de direita têm conduzido, um pouco por todo o mundo, está - ou antes, deveria estar - um princípio que me parece basilar, de tão óbvio, mas ao mesmo tempo tão ignorado (quer por patrões gananciosos como por trabalhadores amedrontados).

O trabalho paga-se. 

É só isto. Tão simples. Se a entidade empregadora tem comigo, trabalhadora, contratualizado um horário de trabalho, o que me é pago é o tempo. Ou seja, vendo o meu tempo de trabalho (35 ou 40 horas por semana) em troca de remuneração. Se tenho um vínculo à tarefa, como nos famosos "recibos verdes", o que vendo é a execução de uma tarefa ou conjunto de tarefas. Mas de borla não trabalho, meus amigos, de borla chama-se voluntariado, e não trabalho.

Eu e uma pessoa da minha equipa estivemos dois dias fora do escritório, em reuniões com uns parceiros (a resolver merdas que outros criaram e me largaram na mão).

No dia seguinte, de regresso ao escritório: "Olá, olha quem voltou. Então, divertiram-se?"

 

Divertiram-se?! Como assim, divertiram-se? Acaso estivemos em alguma festa ou evento, ou em passeio, ou de férias? Acho muita piada a estes comentários. Tanta, que nem os digno com respostas.

Aqui há tempos, não foi agora, mas hoje é ainda mais nítido. Dantes, a altura da reuniões de avaliação dava-me cabo dos nervos. Era eu a defender o chefe perante os outros índios, era eu a defender os índios perante o chefe, era a esquecer-me que dissesse o que dissesse, quem mandava naquela merda toda havia de nos tramar, fazer um manguito ao prémio que devia ser uma cenoura em frente ao nariz e era mais um castelo em cima duma nuvem (como se as parcas centenas de euros lhes saíssem das carteiras, caraças!), e ainda de baixar administrativamente 2 valores à avaliação que o nosso chefe fazia. A não ser que se fosse família ou amigo de algum administrador, caso em que a notinha se via inflacionada. Ficava desgastada, de orgulho ferido, exausta e sem a mais pequena motivação para entrar no antro (acreditam que o passo desacelerava, involuntariamente, em directa proporção da proximidade da porta?). Agora? Agora tenho violentos ataques de riso no gabinete da chefia (depois de questionar como é possível que tudo seja deturpável sem aviso prévio, mesmo o que está acordado e firmado entre as partes), mas diz que faz bem aos abdominais. A matemática criativa dá cabo de mim e a imaginação de uma aula de matemática com queijinhos aos senhores dos RH (para lhes ensinar sobre intervalos e equitatividade) abriu-me o apetite. Bom, ganhei uma receita de mousse de avelã, não foi uma perda total.

Eu: Boa tarde colega, hoje não estou no escritório, estou na sucursal tal, mas amanhã já estou aí. Já vi que o [assunto de trabalho que estamos a tratar em conjunto] já está pronto a avançar. Avanço agora ou espero por amanhã para vermos isso juntos?

Colega: Pois, fui eu que inseri o [assunto de trabalho que estamos a tratar em conjunto] no [local devido]. Podemos avançar para ver como corre.

Eu: Então mas [cenas e detalhes]?

Colega: [Cenas e detalhes], convém avançar com a coisa, mas tenho de validar [outras cenas].

Eu: OK, então depois de validar, diga que eu avanço.

Colega: Como está de férias, se quiser eu avanço.

Eu: [WTF?!] Não estou de férias, estou na sucursal tal. (Subentende-se que, portanto, posso avançar com a cena.)

Colega: Ah, e amanhã, já está cá? Avançamos amanhã.

 

Really?! Toda a gente fala muito da escuta activa, mas na atenção e literacia, nicles.