Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

AntiBlogue

Blogue dum casal real, anti-fashion, anti-fit e anti-top. Detestamos correr, praia no Verão e berros de crianças. Gostamos de viajar, comer, música, livros, vegetar em frente à TV, saldos, limões e sobretudo um do outro.

AntiBlogue

Blogue dum casal real, anti-fashion, anti-fit e anti-top. Detestamos correr, praia no Verão e berros de crianças. Gostamos de viajar, comer, música, livros, vegetar em frente à TV, saldos, limões e sobretudo um do outro.

Vamos respirar fundo. A terrível tragédia da noite passada já não pode ser evitada, é tarde demais. Canalizemos os lamentos e o choque perante tamanho horror para o que pode fazer a diferença de agora em diante. Reflectamos, em conjunto enquanto sociedade civil, com a frieza que for possível.

Todos os anos o tema do verão é o mesmo e perante o horror espectacularizado nas televisões, pouco ou nada muda em termos políticos. Sim, políticos, porque também isto (como TUDO, aliás) é política.

As causas dos incêndios podem ser naturais (e algumas vezes até são, mas a maioria das vezes são crime, vil, nojento, irresponsável e normalmente impune), mas a destruição de floresta autóctone para dar lugar ao Eucalipto, o negócio milionário da pasta de papel, a desertificação do interior, a falta de limpeza e manutenção das matas e florestas, a falta de informação, de prevenção e sim, também de meios locais de combate, o negócio imoral que é também a indústria desses meios, não são a "mãe Natureza" a actuar, são causa e consequência de inépcia política e servilismo ao capital.

E se sabemos que as imagens dos incêndios em destaque permanente nas televisões são potenciadoras da actividade pirómana, para quando regulamentação que impeça o uso abusivo das imagens e as reportagens em directo com chamas em pano de fundo? Já que não há vergonha ou sentido ético que se sobreponha à mediatização da tragédia para "ganhar audiências", que se limite a estupidez onde seja possível.

As vidas das 62 pessoas que faleceram ontem no incêndio de Pedrógão Grande terão sido prematura e injustamente ceifadas em vão se nada mudar, se o povo continuar a lamentar no facebook as tragédias e não se lembrar que a tragédia lhes pode bater à porta quando colocam uma cruz num boletim de voto. Não basta fazer donativos às populações desalojadas e partilhar fotos de bombeiros a chamar-lhes de heróis. É absolutamente inútil fazer "orações pelas famílias das vítimas" (a não ser para o ego poucochinho do católico burguês). Útil é pensar o que podemos fazer, cada um de nós, para que este lamentável desastre nunca mais se repita. Útil é ter sentido crítico e exigir que os responsáveis eleitos façam o seu trabalho com honestidade, sabedoria e respeito, dando prioridade ao ordenamento do território e ao património natural sobre a possibilidade de maximizar os lucros para os mesmos (sempre os mesmos) grupos e escolher melhor quem se elege.

O argumento que vou apresentar de seguida já tive de defender anteriormente, era eu estudante universitária.

Havia um prazo para um trabalho importante e que valia uma boa parte da nota de uma disciplina, que não era comum a todos os estudantes (depois dos anos comuns tínhamos vários ramos da licenciatura e as disciplinas eram optativas de entre um variado leque). Calha que foi agendado um evento social de relevo para o dia antes do fim do prazo para entregar o trabalho. Os alunos daquela disciplina dividiram-se entre os que abdicaram do evento social para se dedicarem a ultimar o trabalho lectivo, e os que decidiram não abdicar do evento social e confiar que após muito choradinho o professor iria estender o prazo de entrega do trabalho. O professor não estendeu o prazo. Eu e vários outros colegas entregaram o melhor trabalho possível dentro do prazo. Os colegas que foram ao evento social entregaram o trabalho após o prazo. O professor aceitou os trabalhos de todos e classificou-os com os mesmos critérios. Foi justo?
Não. Esta foi, é e será sempre a minha posição, que discuti exaustivamente com o professor na defesa do trabalho em questão. O professor, por outro lado, defendeu que não beneficiou ninguém, apenas não penalizou os colegas que entregaram o trabalho fora de prazo. Ora, sob este entendimento, é claro e objectivamente comprovado que alguns alunos tiveram efectivamente mais tempo para concluir o importante trabalho, de resto em igualdade de circunstâncias, já que não existiu penalização pelo atraso.
A meu ver, o não prejuízo dos infractores traduz-se num prejuízo dos cumpridores, que completaram o trabalho num período mais curto sem qualquer benefício na avaliação. Para mim isto é bastante claro e nem seria passível de discussão, de tão óbvio. O professor, que era quem tinha o poder de decisão no caso, defendeu que estava a ser justo para todos, e manteve a sua decisão.


No caso da tolerância de ponto do dia 12 de Maio passa-se exactamente a mesma coisa.

Nem falando no absurdo que é um estado (supostamente) laico dar tolerância de ponto a todos os funcionários públicos porque o Papa vem dar um pulinho a Fátima (onde uns chavalos inventaram uma peta que parece que esteve na causa de uma outra alucinação colectiva a outros tolinhos, mas isso são outros quinhentos), na prática temos os funcionários públicos a terem uma folga adicional não planeada, e o resto da população a ter de arranjar solução para lidar com este "imprevisto": crianças sem escola, consultas, exames, julgamentos e demais afazeres em organismos públicos adiados.

Em suma, um benefício atribuído a uma parte da população e que prejudica directamente o resto da população torna-se numa injustiça. Se a ideia era manifestar o respeito por uma maioria católica numa data aparentemente significativa, faça-se ao 13 de Maio o que se faz a 15 de Agosto (e tantos outros) - feriado nacional. Os motivos continuariam a ser deveras questionáveis, mas pelo menos o feriado seria para todos

Cá em casa somos ambos filhos de pais maoístas (actualmente ex-maoístas, ao que parece) e, ao longo do tempo, fomos descobrindo uma série de coincidências entre os dois, que podem bem ser apenas coincidências engraçadas, mas que gostamos de insinuar que têm relação com a militância clandestina no MRPP.

  • a fase macrobiótica; estranho é como, sendo sensivelmente da mesma idade e tendo frequentado essa meca da alimentação macrobiótica que é a Espiral mais ou menos nos mesmos anos, não se tivessem cruzado antes.
  • ultra-esquisitice na escolha de um lugar de estacionamento; ora porque é apertado, porque é largo demais, porque é longe, porque é mal iluminado, porque é entre dois carros, porque não é entre dois carros, porque fica ao sol, porque tem uma árvore... nunca há urgência ou pressa que justifique estacionar no primeiro lugar que aparece. Nem no segundo.
  • Falando em carros, esta nossa malta da "geração MRPP" parece ter uma particular apetência por automóveis Nissan (apesar do meu pai estar a "ganhar" 3-1.
  • resposta a SMS nossas, sejam curtas ou longas, elaboradas ou só a perguntar qualquer coisa, com "OK". Só isto. Nós perguntamos A ou B, a resposta é, invariavelmente, "OK".
  • terem começado a fumar (cigarros e cachimbo) na fase da clandestinidade e terem deixado definitivamente já bastante "crescidos". Poderá ter relação com a imagem quase mitológica do jovem revolucionário rebelde e erudito, suspeito...
  • ambos não curtem, nem à lei da bala, o seu antigo camarada Durão Barroso (não vou citar as opiniões por uma questão de decoro).

Para os frequentadores habituais, como para qualquer pessoa que já tenha feito uma única visita à Festa do Avante, os mitos propagados pela maioria da comunicação social e pelos anti-comunistas de forma geral são apenas hilariantes. Mas não precisam de acreditar em mim. Podem ver com os vossos olhos ou, melhor ainda, dar o benefício da dúvida e experimentar ir um dia para confirmar in loco que a maior parte das ideias pré-concebidas acerca da Festa são mitos fomentados pela desinformação. Alguns dos mais caricatos:

  • A Festa do Avante é um festival de música.

 

 

 

 

  • Só uns poucos comunistas que vivem para o Partido é que frequentam a Festa.

 

 

  • Os comunistas são todos velhinhos.

  •  Esse pessoal é todo drogado.

  •  O comunismo é bafiento e sisudo

  •  A Festa do Avante está em declínio, quem é que ainda lá vai!?

  • Os comunistas comem criancinhas.

 

 

 

Nota: fotos e vídeos retirados daqui

Importa notar que não há, não faz sentido que haja, não pode haver (!), uma "guerra" entre o ensino público e o ensino privado.

A questão por detrás da demasiado empolada celeuma com os contratos de associação deveria ser, para qualquer pessoa com dois dedos de testa, absolutamente óbvia. Se não há alternativa pública em determinada área, ou deve o Estado criar essa alternativa ou deve, aproveitando as sinergias já existentes, financiar parcialmente o ensino privado nessa área. Existindo suficiente oferta pública, não faz o menor sentido que o Estado financie o ensino privado. Ninguém obriga pais e alunos a mudar de escola, como tanto se tem ouvido e lido por aí. Claro que têm todo o direito de preferir e escolher o ensino privado, também há quem prefira andar de Rolls Royce em vez de andar nos Mercedes da Carris; o que não cabe na cabeça de ninguém é que o Estado financie o Rolls Royce, ou o ensino privado, quando esta oferta é supérflua.
Posto isto, e assumindo desde já um velho e embutido preconceito em prol do ensino público, exerço o meu direito de discordar em absoluto dos amarelóides e de grande parte dos outros, ou seja, de todos os que partem do princípio de que o ensino particular é melhor ou superior ao ensino público.


Em primeiro lugar e como sempre, esta é apenas a minha opinião, pessoal e intransmissível. Mas é uma opinião fundamentada numa longa, longuíssima carreira de estudante, sempre no ensino público. Tirando o pré-escolar (no meu tempo não havia oferta nem frescuras), que passei numa ama, que era no fundo uma avó sem laços de sangue, só estudei no ensino público. E não foi coisa pouca: tudo somado, 22 anos! Ensino até ao 12° ano em 3 escolas (primária, ciclo e secundária). Depois uma licenciatura de 5 anos, com estágio no mesmo estabelecimento. Algum tempo depois, uma pós-graduação. E depois um mestrado. E passados uns anos, já em pleno exercício da minha actividade profissional e com todos os condicionalismos que isso implica, uma outra licenciatura, num outro estabelecimento de ensino superior público.

 

Porquê? Porque pude. E podendo, escolhi, e escolheria sempre, o ensino público sobre o privado. Só de pensar em liceus particulares, nas fardas e no mundo hermeticamente fechado a que os putos se acostumam como se aquela amostragem representasse o mundo real, dá-me arrepios. Obviamente que compreendo quem não tem melhor alternativa por mil motivos, quaisquer que sejam. O que não engulo é que se pense que (no ensino e no resto, aliás) "se é mais caro, é melhor". Pelo menos no meu meio e na altura dos meus 17/18 anos, só ia para uma universidade privada quem não tinha notas suficientemente boas para entrar numa universidade pública. Não será grande novidade, se em Portugal e na zona de Lisboa pensarmos no melhor sitio para estudar Ciências, é a FCUL, se pensarmos no melhor sítio para estudar engenharias, é o IST (e o ISEL não se fica muito atrás), para Letras é a FLUL, para Arquitectura é a FBA, para Direito a FDL, por aí fora.

Se as condições foram alguma vez as ideais? Não, nunca. Nem lá perto.

A primeira manifestação em que participei foi precisamente pela melhoria de condições da minha escola secundária (algures pelo 7° ou 8° ano), porque tínhamos aulas nuns "galinheiros" de paredes de esferovite onde chovia no inverno e cozíamos no verão. Nem sempre tive como opção possível algumas disciplinas que gostaria de ter. Nem sempre tive professores excelentes. Tive uma professora de História que só aparecia de 15 em 15 dias. Houve um ano em que tive 3 professores de matemática diferentes. Tive uma professora que tinha medo de sair sozinha da aula porque uma aluna da escola a tinha ameaçado. Mas também tive professores excepcionais, capazes de nos ensinar, motivar e influenciar. Estive em turmas com sérios problemas comportamentais, vi colegas serem "cumprimentados" pelos pais (que tinham sido chamados à escola) com bofetadas antes de qualquer palavra. Tive colegas cujo ritmo de aprendizagem era mais lento e, por isso, condicionavam o ritmo de progressão de toda a turma. Tive colegas repetentes, de todas as cores e tamanhos e origens. Tive turmas maioritariamente masculinas, cheias de motoqueiros armados em bad boys. Tive de lidar sozinha com tentativas (goradas) de bullying. Tive de confrontar uma professora demasiado permissiva com o boicote diário que ela permitia a quem queria aprender. Tive colegas com deficiências físicas, e outros que eram atletas de primeiríssimo nível, tive colegas ricos, outros muito pobres, tive colegas católicos, outros muçulmanos, outros agnósticos, outros ateus. Já na faculdade, convivi com colegas que tinham feito o secundário em liceus privados e muito caros, e com quem andava quilómetros diariamente para chegar à sua escola secundária algures no distrito da Guarda. Uns chegavam de descapotável, outros de transportes públicos, outros de cadeira de rodas empurrada por familiares. Havia militares, pessoal a fazer segunda licenciatura e que já trabalhava, um velhote que andava por lá a passar a reforma, uns que tinham ido parar ao curso errado na esperança de obter equivalências e mudar para o curso que realmente queriam.

Toda esta diversidade compôs o melhor ambiente de ensino que eu poderia desejar, por ser tão representativo do mundo real. É que a escola deve ensinar muito mais do que o que vem escrito nos livros. Foi no ensino público que aprendi a tolerar e respeitar as diferenças, todas as diferenças. Descobri que podemos encontrar amigos e aliados em quem menos esperamos. Percebi que o que era garantido na minha casa (seja em termos económicos ou disciplinares até coisas tão básicas como normas de higiene) não o era na casa do meu colega do lado. Aprendi a não ter vergonha de ser boa aluna e a desenrascar-me por mim própria mesmo se os professores falhassem, se chovesse em cima dos livros e o diabo a sete. Ganhei resiliência. Sobrevivi a dias de doze horas de aulas sem intervalos e a dias de "furos" de oito horas. Aprendi a lidar bem com mudanças bruscas e novos desafios, enfrentei todas as reformas educativas em cada ano inicial da coisa, qual cobaia. Criei uma carapaça quase imbatível de resistência à frustração. Aprendi que os dogmas só o são até serem substituídos. Aprendi que a vocação de cada um é tudo, mas pode não ser suficiente. Aprendi que a vida não é justa, nem tem garantias, e que o caminho mais fácil/previsível/regular normalmente não tem piada nenhuma. Aprendi que se não for cada um de nós a lutar pelos nossos direitos e pelos nossos objectivos, ninguém o fará por nós. Até aprendi a estudar, aprendi a aprender e, o mais útil de tudo, aprendi a ser quem quero ser.

E nem foi necessário ter aulas de religião, golfe, esgrima, equitação ou rapel!

 

Poderão dizer-me que a minha visão é toldada por ser parcial e não conhecer o reverso da moeda, mimimimi. Só que conheço. Pese embora a minha única experiência com o ensino privado tenha sido na perspectiva de docência, infelizmente pude confirmar que a maior parte das minhas ideias feitas só pecavam pela parcimónia. O ensino privado é, antes de mais, um negócio, e visa principalmente obter o máximo de lucro. Se o ensino é de qualidade, se a oferta lectiva é adequada às necessidades da sociedade e do mercado de emprego, ou se é garantido o bem-estar dos alunos são pormenores - ou pelo menos assim parece! Não querendo extrapolar do particular para o geral, posso dar como termo de comparação os conteúdos programáticos das disciplinas que leccionei e que eram, em dois semestres da universidade privada, inferiores em quantidade e detalhe àquilo que aprendi em apenas um semestre enquanto aluna numa universidade pública. Quanto a condições, eram fracas (equipamento manifestamente insuficiente e horários anti-pedagógicos, por exemplo, até alguns casos extremos de não haver cadeiras suficientes nas salas de aula para todos os alunos), mas nem foi isso que me chocou mais. O que me deixou realmente espantada (e triste) foi o facto dos meus alunos - de cursos com propinas mensais entre os seiscentos e os mais de mil euros - não reivindicarem mais e melhor do que aquilo que lhes era apresentado. Perguntei-lhes porque não reclamavam e as respostas oscilaram entre ombros encolhidos e um tom resignado de "não vale a pena"... 

Nas "piores" das escolas públicas não é raro encontrar alunos brilhantes. Mas, ao contrário do que eu pensava há alguns anos, no ensino privado nem todos os alunos são limitados. Pese embora não me tenha cruzado no ensino superior privado com nenhum aluno excepcional, tive alguns bons alunos, muito capazes e inteligentes. Mas talvez por serem, de alguma forma, privilegiados (não é quem quer que pode dispender mensalmente de 600 a 1000 e tal euros para pagar propinas, é só quem pode!), não lhes ocorria exigir o mais essencial do que quantias tão avultadas deviam servir para pagar.

Mesmo, mesmo a sério!

 

Nem sempre foi assim. Digamos que passei de um extremo ao outro. Quando era miúda adorava, ia aos jogos da minha equipa local (que entretanto já nem tem futebol sénior e anda a "vender"* todo o património ao pior clube do mundo), via os treinos, via jogos de iniciados, torcia pelas equipas. Como uma pessoa muito próxima tinha uma grande ligação ao mundo do futebol, fui sendo envolvida mais e mais. Acontece que cheguei ao ponto de estar tão envolvida que comecei a abrir os olhos e a ver que o futebol deixou de ser só o jogo, a parte de que eu realmente gostava, para ser quase tudo menos o jogo. É o teatro, é a política, é a enorme mentira, é o dinheiro, a corrupção, a arbitragem, é a gestão, é a traição. E disso eu não gosto. Na verdade, abomino. E foi assim que cortei relações com o futebol. Não sei o nome dos jogadores, nem dos presidentes, não vejo jogos, já não me serve de entretenimento. Para piorar, vivo mesmo bastante perto do centro de estágios (a que eu chamo, carinhosamente, de lixeira) da equipa que menos gosto (nem tenho nada contra o clube, são mesmo os adeptos que me enojam). Cá a terreola sempre foi vermelha, contava com alguns ex-jogadores (os mais bêbados e porcos habitantes, I kid you not!) e generalizada falta de bom gosto visão. E foram em particular estes adeptos, sujos, garganeiros e mal-educados, que cospem para o chão e gostam pouco de banho, que têm o cabelo e os bigodes sebosos, que arrotam alarvemente e coçam os tomates em público, que me tornaram anti-benfiquista. Se tivesse passado a infância e adolescência no centro do Porto seria provavelmente anti-Portista, porque não são as cores ou os clubes que me enervam, é a ignorância e a falta de respeito pelos outros.

Não há vermelhices na minha família, a maior parte é (doente) dos verdes e eu sou azul e branca. Por azar, ou para provar que ninguém é perfeito, o homem é um desses lampiões, dos piores. Foi ver o jogo de hoje, claro, para o seu lugar cativo. Pediu-me calmantes, e eu devia ter-lhe dado laxantes, mas até gosto do miúdo. Mas odeio todo o banzé que os hooligans fazem à minha porta, a excursão de parolice atrás do autocarro vermelho quando saiu daqui para o estádio (até uma vaca ia na caravana), toda e cada uma das vuvuzelas que me acordaram duma sesta que podia ter sido perfeita.

13232983_887374494704444_4049064887351649992_n.jpg

Tendo em conta os uivos histéricos e buzinões que oiço na rua, incessantemente, parece que ganharam alguma coisa. Foi encontrada a cura para o cancro? A solução energética limpa e potente? Não, foi um campeonato (já não se chama campeonato, não é? I don't care!). Sairiam estas alminhas à rua para defender os seus direitos, para contestar contra a corrupção ou desastrosos desgovernos? Já vimos nos últimos anos que não. Nem uma ínfima parte destas pessoas, nem com uma ínfima parte do fervor com que apitam as suas tristes buzinas. E isto só me faz abominar ainda mais o "futebol", que é tudo menos o futebol. Não os 90 minutos do jogo, mas esta triste euforia que preenche as vidas vazias de coisas melhores de tanta gente, esta alienação em relação a tudo o resto. A grossa maioria destas pessoas não lê jornais que não os desportivos, não vê debates que não os que versam sobre este mundinho lateral, não gritam por mais nada, não vibram por mais nada. Não têm três tostões furados para ir ao dentista, mas a coisa tv não pode faltar lá em casa, nem as quotas podem ficar por pagar, para sempre, dizem eles enquanto gastam meio depósito do combustível que reclamam que está tão caro para dar voltas às ruas de bandeiras em punho.

Agora ouvi um tiro ou foguete, não sei. O homem não diz nada, desconheço se vive ou não, mas espero que pelo menos não me faça passar vergonhas. Vou aproveitar para ver mais uns filmes e marcar na lista negra os vizinhos que fazem chinfrim.

 

*"Vender" pavilhões desportivos e estádios por um euro pode dizer-se que é dar, não? 

Aplicável a estágios, horas extraordinárias, e muitas mais situações a que as políticas liberais de direita têm conduzido, um pouco por todo o mundo, está - ou antes, deveria estar - um princípio que me parece basilar, de tão óbvio, mas ao mesmo tempo tão ignorado (quer por patrões gananciosos como por trabalhadores amedrontados).

O trabalho paga-se. 

É só isto. Tão simples. Se a entidade empregadora tem comigo, trabalhadora, contratualizado um horário de trabalho, o que me é pago é o tempo. Ou seja, vendo o meu tempo de trabalho (35 ou 40 horas por semana) em troca de remuneração. Se tenho um vínculo à tarefa, como nos famosos "recibos verdes", o que vendo é a execução de uma tarefa ou conjunto de tarefas. Mas de borla não trabalho, meus amigos, de borla chama-se voluntariado, e não trabalho.

Eu, comunista, ateia, tenho fé no Papa Francisco.

 

Agrada-me que seja politizado (o que alguns tentam que soe a acusação, eu diria que é um elogio). E para o lado certo.

Que seja humanista. E crítico da instituição a que preside. Progressista q.b.

Está muuuuuito longe da perfeição, mas para o mais influente líder mundial, homem branco e católico, não está mal de todo.

 

A esquerda continua a insistir em marcar as suas diferenças em vez de se concentrar nas semelhanças, e assim continua a perder eleições e votos. Carvalho da Silva teria sido um candidato unificador, com provas dadas, conhecido por todos e independente (como fazia falta que fosse).

Eu continuo a estar num sítio muito específico, com a certeza da ideologia comunista, e com a frieza de discordar em vários pontos e a desfaçatez - dirão - de admirar alguns outros pontos nos "adversários".

Por muito que a comunicação social o deseje, BE e CDU não são adversários naturais. São distintos, sim, mas na maior parte dos aspectos importantes, são idênticos e complementares. E espantem-se, nenhum dos dois é dono da razão.
O BE defende, e bem, o fim das touradas, ao passo que a CDU até é a favor do regime de excepção em relação aos "touros de morte" em Barrancos, a bem duma "tradição" bárbara e cruel.
A CDU é, e bem, contra o Acordo Ortográfico que o Bloco defende (sendo que a Marisa Matias discorda do seu partido, o que lhe vale pontos adicionais no meu respeito e consideração).
Mas o Bloco defende a despenalização das drogas leves e a CDU nem sequer faz distinção entre drogas leves e pesadas.
Ambos advogam os direitos igualitários entre géneros, mas se no Bloco a liderança e as figuras fortes são (grandes!) mulheres, ė na bancada do PCP que a paridade é (muito) mais sentida.

A piadola de Jerónimo de Sousa não tinha Marisa Matias como alvo, estou quase certa (pareceu-me que os alvos seriam os populistas Marcelo e Vitorino). Tenho Jerónimo como pessoa de bem e exemplar no trato para com os outros; uma atitude misógina deste calibre não se coaduna com a pessoa e muito menos com o líder político. Se a infeliz frase foi mesmo dita com a intenção de minimizar politicamente uma mulher e uma força política que têm mostrado o quanto merecem o respeito do povo português, é triste, grave e lamentável. Convinha o esclarecimento, já agora.

O PCP peca, e perde, pela falta de agilidade na comunicação, onde o BE é exímio e acutilante. Se o PCP quer acompanhar o ritmo frenético do Séc. XXI, tem de sair do Avante! para o mundo, tem de deixar-se contaminar pelo fulgor da juventude, tem de marcar uma presença forte e coerente nas redes sociais, tem de dotar o discurso de maior capacidade de improviso, de subjectividade (ou seja, autenticidade). Bater sempre na tecla da "política patriótica e de esquerda" e afins é um erro, é dar argumentos a quem etiqueta tudo como "a cassete" e nem se dá ao trabalho de escutar o seu significado.

Do mesmo modo (e aqui Edgar Silva é o último exemplo flagrante), não pode existir hesitação nem respostas enigmáticas a questões muito objectivas. Se há democracia na Coreia do Norte, a liberdade de expressão em Angola, etc. e tal. Há que agarrar o toiro pelos cornos e assumir, com toda a frontalidade, onde os outros projectos comunistas falharam; há que assumir deliberadamente que o projecto do PCP não passa pelos mesmos moldes e explicar, com factos, argumentos e propostas, qual é a proposta do PCP para Portugal.

Assumir humildemente a derrota nas presidenciais seria um bom começo num virar de página. A substituição da lideranla de Jerónimo, como tem vindo a ser referida por aí, não tem resposta em Edgar Silva (que, apesar de tudo, foi um dos melhores candidatos de sempre do PCP). Ouçam o que eu digo: Bernardino Soares.

- Marcelo, ganhou o gajo que estava em campanha há 15 anos e com o apoio dos Merdia quase todos.

- Nóvoa, perdeu o candidato apoiado pelo Centro-Esquerda do PS e a Máquina partidária do Livre (tão novos e já com uma máquina partidária...)

- Marisa, as "marias" do Bloco levam tudo a frente até limpam os recordes do Louçã e ainda bem.

- Maria de Belém, foi "subvencida" a candidata aPoiAda pela Direita do PS ( Francisco Assis e Vítor Melícias incluídos)

- Edgar Silva, parece que foi o cordeiro oferecido por alguém, mais conhecido na Madeira não merecia tão pouco...

- Tino de Rans, um dos mais conhecido dos desconhecidos fez um bom resultado.

- Paulo de Morais, K7 perito em Corrupção mas só isso não chega.

- Henrique Neto, o Candidato Vidente só não conseguiu visionar a sua estrondosa derrota.

- Jorge Sequeira, o Gustavo Santos destas presidenciais, muito pouco para aquele ar alucinado

- Cândido Ferreira, quem?

 

Adeus Cavaco!!

"As pessoas já olham mais para as pessoas do que apenas para o partido de que gostam. Analisam o candidato e não a máquina partidária que está nos bastidores."

Como não olhar para os partidos de onde vêm, onde estão, que os apoia (assumida ou discretamente), para observar antes a pessoa?!

Ao contrário do que parece a muito boa gente, não é (só) em pessoas que votamos, nem para as presidenciais e muito menos para legislativas e autárquicas.

Primeiro, não conhecemos, regra geral, as pessoas por detrás dos candidatos. Não sabemos em primeira mão dos seus afectos, dos seus humores, se preferem tinto ou branco, ou se têm mau hálito. Nem sabemos, nem temos nada que saber, nem isso importa minimamente para o caso.

Em segundo lugar, gostar ou simpatizar com uma figura pública, com a "persona", sem tomar em conta as ideias políticas e ideológicas, não garante qualquer tipo de confiança no desempenho de funções com competência e honestidade, muito menos é bom presságio de que se venha a concordar com as posições que o candidato venha a tomar, futuramente.

Por mero acaso, eu até conheço uma pessoa que é candidata à presidência. Não conheço intimamente, mas é uma pessoa que estimo, de quem tenho a melhor das impressões, que é, tanto quanto fui apurando ao longo do tempo, uma pessoa honestíssima e exemplar a muitos níveis, sobretudo o humano. Ideologicamente, até nos situamos a pouca distância, embora não tenhamos posições idênticas. Mas não é nesta pessoa que vou votar, e isso nem sequer me cruzou o pensamento. Porquê? Porque há candidatos que me representam melhor e que eu considero mais aptos para a função.

Se os apoios ou aproximações partidárias contam para esta decisão? Obviamente!
Não tem qualquer fundamento ajudar para eleger uma pessoa cujo papel é o mais importante na democracia se não nos revemos no seu discurso, ou se criticamos as suas decisões ou ausência delas. Quero na presidência um candidato em quem confie para defender os ideais que, na minha óptica, são os mais correctos, os mais justos. Quero na presidência alguém que zele pelo bom funcionamento da democracia no meu país, que faça respeitar a Constituição, que chame à responsabilidade os governos, os protagonistas da economia e da sociedade civil. Não posso ignorar o seu percurso político, aquilo que fez e disse, aquilo em que acredita.

Uma destas manhãs dizia uma colega (daquelas pessoas que gostam muito de dizer coisas, muitas vezes contraditórias de semana para semana) que não importam os partidos, acha é que devem ser pessoas novas, com ideias novas, a assumir o cargo. Portanto, levando esta opinião a um extremo, esta pessoa acha que deve votar na pessoa mais jovem ou mais *novidade*, independentemente das suas ideias serem uma valente bosta. Se isto faz, genuinamente, sentido a alguma alma, a questão que se impõe é: onde é que estacionaste a nave espacial?

Sob a velha (e ignorante) perspectiva do "ah, os políticos são todos iguais, mais vale votar neste que a gente já conhece / é do meu clube / já vi este senhor na televisão", a coisa consegue piorar. É escolher, deliberadamente, uma porcaria, sabendo que é uma porcaria, cujo cheiro já é familiar. Foi assim que ficámos dez - atenção, DEZ! - anos com o pior múmia... presidente de que há memória, nesta pequena e mal afortunada República.

 

Quando era pequena, adorava ir ao zoo, e tudo o que envolvesse estar perto de animais. Dar pão aos patos no pequeno lago do jardim, observar formigas e lagartixas também. Há várias fotos de mim, no zoo, agarrada às redes, sem ser perceber bem se preferiria que os bichos estivessem livres ou que eu estivesse do lado de lá. Creio que me era indiferente, eu queria era estar com eles, comunicar com eles. Recordo-me de ter a sensação de não me sentir diferente destes animais e achar que comunicava de forma algo telepática com eles. Na verdade, ainda acho um pouco.

O que vem nos livros de conservação da natureza e biodiversidade, e com o que eu concordo, é que os zoos têm uma importantíssima missão de educação e sensibilização. É verdade que não se gosta daquilo que não se conhece, e do que não se gosta não há vontade de preservar. Toda a gente está sensibilizada para o perigo que correm os pandas e o seu habitat porque os pandas são giros, são fofos, são engraçados. (As espécies menos fofas também precisam de atenção e é bem mais difícil captar atenções e mobilizar meios de estivemos a falar de répteis com ar feroz ou de peixes feiosos.) Acrescento ainda o papel que os zoos tem em múltiplos programas de preservação de espécies em risco, também pelo aspecto da reprodução em cativeiro, e programas de salvamento e mesmo de reintrodução de animais no seu habitat natural. Tudo certo. Há todo um trabalho muito bom e muito meritório de todo o meu respeito e veneração, mesmo.

Mas depois há a realidade. Eu pensava que aguentava e que tinha saudades de ir a um zoo, toda a minha racionalidade alerta confirmava cada palavra que repeti para conseguir convencer o homem, que odeia zoos tanto quanto odeia touradas e animais no circo (como eu), metendo tudo no mesmo saco. Eu tinha de ver os pandas no Zoo de Pequim, tinha mesmo. Lá fomos. O homem sob protesto. Ainda por cima tão barato. E foi duro. Muito duro. Não que as condições fossem más, para zoo, que não são. Mas não só não matei saudades de zoo como até acho que enquanto me lembrar daquele urso não volto a pôr os pés num zoo.

Sacana do urso, tão longe da sua casa (ainda que nunca tenha conhecido outra), com aqueles olhos a falarem comigo, a pôr-de de pé quando viu o homem, com ar de súplica, como quem pede ajuda ou só conversa. Os acrílicos entre nós. Outros ursos a vaguear. Os olhos daquele urso a perguntarem "porquê". Os meus olhos desfeitos em sal, os olhos dele a soluçarem. Mesmo a recordação daqueles minutos me dói com o peso de todo o mal que fazemos ao planeta, a nós.

Não mais, por favor. Não mais.