Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

AntiBlogue

Blogue dum casal real, anti-fashion, anti-fit e anti-top. Detestamos correr, praia no Verão e berros de crianças. Gostamos de viajar, comer, música, livros, vegetar em frente à TV, saldos, limões e sobretudo um do outro.

AntiBlogue

Blogue dum casal real, anti-fashion, anti-fit e anti-top. Detestamos correr, praia no Verão e berros de crianças. Gostamos de viajar, comer, música, livros, vegetar em frente à TV, saldos, limões e sobretudo um do outro.

O argumento que vou apresentar de seguida já tive de defender anteriormente, era eu estudante universitária.

Havia um prazo para um trabalho importante e que valia uma boa parte da nota de uma disciplina, que não era comum a todos os estudantes (depois dos anos comuns tínhamos vários ramos da licenciatura e as disciplinas eram optativas de entre um variado leque). Calha que foi agendado um evento social de relevo para o dia antes do fim do prazo para entregar o trabalho. Os alunos daquela disciplina dividiram-se entre os que abdicaram do evento social para se dedicarem a ultimar o trabalho lectivo, e os que decidiram não abdicar do evento social e confiar que após muito choradinho o professor iria estender o prazo de entrega do trabalho. O professor não estendeu o prazo. Eu e vários outros colegas entregaram o melhor trabalho possível dentro do prazo. Os colegas que foram ao evento social entregaram o trabalho após o prazo. O professor aceitou os trabalhos de todos e classificou-os com os mesmos critérios. Foi justo?
Não. Esta foi, é e será sempre a minha posição, que discuti exaustivamente com o professor na defesa do trabalho em questão. O professor, por outro lado, defendeu que não beneficiou ninguém, apenas não penalizou os colegas que entregaram o trabalho fora de prazo. Ora, sob este entendimento, é claro e objectivamente comprovado que alguns alunos tiveram efectivamente mais tempo para concluir o importante trabalho, de resto em igualdade de circunstâncias, já que não existiu penalização pelo atraso.
A meu ver, o não prejuízo dos infractores traduz-se num prejuízo dos cumpridores, que completaram o trabalho num período mais curto sem qualquer benefício na avaliação. Para mim isto é bastante claro e nem seria passível de discussão, de tão óbvio. O professor, que era quem tinha o poder de decisão no caso, defendeu que estava a ser justo para todos, e manteve a sua decisão.


No caso da tolerância de ponto do dia 12 de Maio passa-se exactamente a mesma coisa.

Nem falando no absurdo que é um estado (supostamente) laico dar tolerância de ponto a todos os funcionários públicos porque o Papa vem dar um pulinho a Fátima (onde uns chavalos inventaram uma peta que parece que esteve na causa de uma outra alucinação colectiva a outros tolinhos, mas isso são outros quinhentos), na prática temos os funcionários públicos a terem uma folga adicional não planeada, e o resto da população a ter de arranjar solução para lidar com este "imprevisto": crianças sem escola, consultas, exames, julgamentos e demais afazeres em organismos públicos adiados.

Em suma, um benefício atribuído a uma parte da população e que prejudica directamente o resto da população torna-se numa injustiça. Se a ideia era manifestar o respeito por uma maioria católica numa data aparentemente significativa, faça-se ao 13 de Maio o que se faz a 15 de Agosto (e tantos outros) - feriado nacional. Os motivos continuariam a ser deveras questionáveis, mas pelo menos o feriado seria para todos

Importa notar que não há, não faz sentido que haja, não pode haver (!), uma "guerra" entre o ensino público e o ensino privado.

A questão por detrás da demasiado empolada celeuma com os contratos de associação deveria ser, para qualquer pessoa com dois dedos de testa, absolutamente óbvia. Se não há alternativa pública em determinada área, ou deve o Estado criar essa alternativa ou deve, aproveitando as sinergias já existentes, financiar parcialmente o ensino privado nessa área. Existindo suficiente oferta pública, não faz o menor sentido que o Estado financie o ensino privado. Ninguém obriga pais e alunos a mudar de escola, como tanto se tem ouvido e lido por aí. Claro que têm todo o direito de preferir e escolher o ensino privado, também há quem prefira andar de Rolls Royce em vez de andar nos Mercedes da Carris; o que não cabe na cabeça de ninguém é que o Estado financie o Rolls Royce, ou o ensino privado, quando esta oferta é supérflua.
Posto isto, e assumindo desde já um velho e embutido preconceito em prol do ensino público, exerço o meu direito de discordar em absoluto dos amarelóides e de grande parte dos outros, ou seja, de todos os que partem do princípio de que o ensino particular é melhor ou superior ao ensino público.


Em primeiro lugar e como sempre, esta é apenas a minha opinião, pessoal e intransmissível. Mas é uma opinião fundamentada numa longa, longuíssima carreira de estudante, sempre no ensino público. Tirando o pré-escolar (no meu tempo não havia oferta nem frescuras), que passei numa ama, que era no fundo uma avó sem laços de sangue, só estudei no ensino público. E não foi coisa pouca: tudo somado, 22 anos! Ensino até ao 12° ano em 3 escolas (primária, ciclo e secundária). Depois uma licenciatura de 5 anos, com estágio no mesmo estabelecimento. Algum tempo depois, uma pós-graduação. E depois um mestrado. E passados uns anos, já em pleno exercício da minha actividade profissional e com todos os condicionalismos que isso implica, uma outra licenciatura, num outro estabelecimento de ensino superior público.

 

Porquê? Porque pude. E podendo, escolhi, e escolheria sempre, o ensino público sobre o privado. Só de pensar em liceus particulares, nas fardas e no mundo hermeticamente fechado a que os putos se acostumam como se aquela amostragem representasse o mundo real, dá-me arrepios. Obviamente que compreendo quem não tem melhor alternativa por mil motivos, quaisquer que sejam. O que não engulo é que se pense que (no ensino e no resto, aliás) "se é mais caro, é melhor". Pelo menos no meu meio e na altura dos meus 17/18 anos, só ia para uma universidade privada quem não tinha notas suficientemente boas para entrar numa universidade pública. Não será grande novidade, se em Portugal e na zona de Lisboa pensarmos no melhor sitio para estudar Ciências, é a FCUL, se pensarmos no melhor sítio para estudar engenharias, é o IST (e o ISEL não se fica muito atrás), para Letras é a FLUL, para Arquitectura é a FBA, para Direito a FDL, por aí fora.

Se as condições foram alguma vez as ideais? Não, nunca. Nem lá perto.

A primeira manifestação em que participei foi precisamente pela melhoria de condições da minha escola secundária (algures pelo 7° ou 8° ano), porque tínhamos aulas nuns "galinheiros" de paredes de esferovite onde chovia no inverno e cozíamos no verão. Nem sempre tive como opção possível algumas disciplinas que gostaria de ter. Nem sempre tive professores excelentes. Tive uma professora de História que só aparecia de 15 em 15 dias. Houve um ano em que tive 3 professores de matemática diferentes. Tive uma professora que tinha medo de sair sozinha da aula porque uma aluna da escola a tinha ameaçado. Mas também tive professores excepcionais, capazes de nos ensinar, motivar e influenciar. Estive em turmas com sérios problemas comportamentais, vi colegas serem "cumprimentados" pelos pais (que tinham sido chamados à escola) com bofetadas antes de qualquer palavra. Tive colegas cujo ritmo de aprendizagem era mais lento e, por isso, condicionavam o ritmo de progressão de toda a turma. Tive colegas repetentes, de todas as cores e tamanhos e origens. Tive turmas maioritariamente masculinas, cheias de motoqueiros armados em bad boys. Tive de lidar sozinha com tentativas (goradas) de bullying. Tive de confrontar uma professora demasiado permissiva com o boicote diário que ela permitia a quem queria aprender. Tive colegas com deficiências físicas, e outros que eram atletas de primeiríssimo nível, tive colegas ricos, outros muito pobres, tive colegas católicos, outros muçulmanos, outros agnósticos, outros ateus. Já na faculdade, convivi com colegas que tinham feito o secundário em liceus privados e muito caros, e com quem andava quilómetros diariamente para chegar à sua escola secundária algures no distrito da Guarda. Uns chegavam de descapotável, outros de transportes públicos, outros de cadeira de rodas empurrada por familiares. Havia militares, pessoal a fazer segunda licenciatura e que já trabalhava, um velhote que andava por lá a passar a reforma, uns que tinham ido parar ao curso errado na esperança de obter equivalências e mudar para o curso que realmente queriam.

Toda esta diversidade compôs o melhor ambiente de ensino que eu poderia desejar, por ser tão representativo do mundo real. É que a escola deve ensinar muito mais do que o que vem escrito nos livros. Foi no ensino público que aprendi a tolerar e respeitar as diferenças, todas as diferenças. Descobri que podemos encontrar amigos e aliados em quem menos esperamos. Percebi que o que era garantido na minha casa (seja em termos económicos ou disciplinares até coisas tão básicas como normas de higiene) não o era na casa do meu colega do lado. Aprendi a não ter vergonha de ser boa aluna e a desenrascar-me por mim própria mesmo se os professores falhassem, se chovesse em cima dos livros e o diabo a sete. Ganhei resiliência. Sobrevivi a dias de doze horas de aulas sem intervalos e a dias de "furos" de oito horas. Aprendi a lidar bem com mudanças bruscas e novos desafios, enfrentei todas as reformas educativas em cada ano inicial da coisa, qual cobaia. Criei uma carapaça quase imbatível de resistência à frustração. Aprendi que os dogmas só o são até serem substituídos. Aprendi que a vocação de cada um é tudo, mas pode não ser suficiente. Aprendi que a vida não é justa, nem tem garantias, e que o caminho mais fácil/previsível/regular normalmente não tem piada nenhuma. Aprendi que se não for cada um de nós a lutar pelos nossos direitos e pelos nossos objectivos, ninguém o fará por nós. Até aprendi a estudar, aprendi a aprender e, o mais útil de tudo, aprendi a ser quem quero ser.

E nem foi necessário ter aulas de religião, golfe, esgrima, equitação ou rapel!

 

Poderão dizer-me que a minha visão é toldada por ser parcial e não conhecer o reverso da moeda, mimimimi. Só que conheço. Pese embora a minha única experiência com o ensino privado tenha sido na perspectiva de docência, infelizmente pude confirmar que a maior parte das minhas ideias feitas só pecavam pela parcimónia. O ensino privado é, antes de mais, um negócio, e visa principalmente obter o máximo de lucro. Se o ensino é de qualidade, se a oferta lectiva é adequada às necessidades da sociedade e do mercado de emprego, ou se é garantido o bem-estar dos alunos são pormenores - ou pelo menos assim parece! Não querendo extrapolar do particular para o geral, posso dar como termo de comparação os conteúdos programáticos das disciplinas que leccionei e que eram, em dois semestres da universidade privada, inferiores em quantidade e detalhe àquilo que aprendi em apenas um semestre enquanto aluna numa universidade pública. Quanto a condições, eram fracas (equipamento manifestamente insuficiente e horários anti-pedagógicos, por exemplo, até alguns casos extremos de não haver cadeiras suficientes nas salas de aula para todos os alunos), mas nem foi isso que me chocou mais. O que me deixou realmente espantada (e triste) foi o facto dos meus alunos - de cursos com propinas mensais entre os seiscentos e os mais de mil euros - não reivindicarem mais e melhor do que aquilo que lhes era apresentado. Perguntei-lhes porque não reclamavam e as respostas oscilaram entre ombros encolhidos e um tom resignado de "não vale a pena"... 

Nas "piores" das escolas públicas não é raro encontrar alunos brilhantes. Mas, ao contrário do que eu pensava há alguns anos, no ensino privado nem todos os alunos são limitados. Pese embora não me tenha cruzado no ensino superior privado com nenhum aluno excepcional, tive alguns bons alunos, muito capazes e inteligentes. Mas talvez por serem, de alguma forma, privilegiados (não é quem quer que pode dispender mensalmente de 600 a 1000 e tal euros para pagar propinas, é só quem pode!), não lhes ocorria exigir o mais essencial do que quantias tão avultadas deviam servir para pagar.

Eu era (e sou) de esquerda (esquerda a sério), e a favor de uma PGA no acesso ao ensino superior. Não nos moldes da famigerada PGA tal como existia, limitada a questões de Português e História, mas uma PGA com questões essenciais de Português, Matemática, Ciências da Vida, História e actualidade. Considerei uma PGA útil e necessária enquanto aluna do Ensino Secundário, enquanto aluna do ensino superior e enquanto professora do ensino superior. Não acho (sem grandes certezas, porque estou distante da realidade do ensino básico) que os exames nacionais do 4º ano sejam úteis e muito menos necessários, mas acho que a avaliação é necessária e tem de ser encarada com toda a naturalidade.

 

A propóstito deste post do sempre acutilante País do Burro.

  • Quem fala de política sem medo de divergir da maioria.
  • Quem é fiel aos seus princípios e defende até ao fim aquilo em que acredita.
  • Quem trata bem os animais.
  • Quem sorri quando fala e ouve falar de viagens boas.
  • Quem leu pelo menos dez vezes mais livros do que teve namoros.
  • Homem com barba.

Che Guevara sexy barba comunismo política

 

Disclaimer: as minhas definições, a vocês (os três) que me lêem, estejam à vontade para discordar.

O Paulo Côrte-Real disse tudo o que era necessário no Jugular. Os questionários são mal feitos, ponto. As questões relativas ao comportamento sexual dos candidatos a dadores cujas respostas interessam deveriam ser, objectivamente:

- manteve relações sexuais (inclui sexo vaginal, sexo anal e sexo oral) desprotegidas nos últimos 6 meses?

- teve contacto, nos últimos 6 meses, com mais do que um parceiro sexual?

Só isto.

 

Independentemente das questões colocadas, não há como validar a veracidade das mesmas, pelo que o questionário cumpre apenas com a função de despiste prévio (evitando recolha de sangue que, após análise, seja identificado como portador de algum factor de risco, como por exemplo vestígios de doenças infecto-contagiosas). Caso um candidato a dador seja excluído durante esta triagem, evita a dádiva (que pode provocar algum desconforto e fraqueza), e são evitados os custos associados à recolha, transporte e análise de tecido sanguíneo que não será utilizado para dádivas a outrem e ainda tem de ser destruído.

Após a recolha são, naturalmente, realizadas as análises consideradas necessárias (cujo resultado é partilhado com o dador).

Mas há outro ponto que acho sensível e importante e que partilho convosco. Há genes que se sabe terem uma correlação com o desenvolvimento de algumas doenças auto-imunes. A doação de sangue por parte de portadores desses genes não é consensual. Ora, eu fui dadora de sangue durante alguns anos (como acho que todos os que podem e reúnem condições para a dádiva, tanto de sangue como de medula, deviam ser). Depois descobri que sou heterozigótica para um destes genes malvados e fui investigar. Pois que nuns países se dizia que sim senhor, não se conhecem efeitos nos receptores de sangue quando os dadores são portadores e, por isso, não havia impedimento algum. Noutros países, por precaução, a recomendação é que os seropositivos para aquele gene não doassem sangue (e agora já não me recordo se era feita a análise ou se os questionários de rastreio incluíam alguma questão sobre o tema). Eu sabia que cá em Portugal o tema não era abordado especificamente nos inquéritos de rastreio (apesar das questões incidirem também sobre o histórico clínico, mas a questão é que se pode ter este gene sem haver desenvolvimento de doença auto-imune ou as suspeitas de doença só surgirem mais tarde). Vai daí, perguntei ao Instituto Português do Sangue qual era a postura adoptada, e se poderia ou não continuar a ser dadora. A resposta foi a mais imbecil possível. Diziam-me qualquer coisa como "depende da opção de quem estiver a fazer o rastreio, o melhor é vir cá e logo se vê". Se seria possível ser mais ambíguo ou irresponsável? Duvido.

 

[Infelizmente para mim, a dúvida deixou de fazer sentido quando se confirmou que me havia "saído a lotaria", ou seja, tenho uma doença crónica auto-imune e passei a tomar drogas que ninguém quer no seu sangue e me excluem da possibilidade de doar sangue.]